domingo, 23 de setembro de 2018

os punhos para a luta - Manoel de Andrade

 Manoel de Andrade em Lisboa

os punhos para a luta.

 
O sol não nasceu naquele dia
e durante vinte anos ficou proibido amanhecer.
Nossas vidas… algumas em botão
desabrocharam numa paisagem devastada.
Nossas canções e o encanto daqueles festivais
foram sufocados pela sinfonia marcial dos regimentos.
Nosso norte foi retirado do horizonte,
nossas bússolas quebradas
e o destino da pátria ancorado nos quartéis.

Durava cinco anos o outono oficial
quando no parlamento disseram basta aos generais
e eis que o ditador apagou as luzes derradeiras
e no palco fugaz e ilusório do poder
abriu-se o quinto ato da tragédia nacional.
Então todas as sanhas foram desatadas
amarrando nossos punhos
acuando nossos sonhos.
As tribunas do povo foram derrubadas
e a todos foi imposto o sabor da abstinência
nosso grito de protesto amordaçado
nossas canções silenciadas
nossa coragem esmagada pela esteira dos blindados
invadiram nossos lares
nossas almas foram devassadas
acorrentaram a liberdade e cuspiram na justiça
maquiaram a verdade, esbofetearam nossos sonhos
e a nação insultada vestiu-se de vergonha.

Pelas guaritas do poder mil retinas te observam
mil bocas te delatam
e uma sombra segue teus passos…
Depois teus punhos são algemados
e gargalham sobre teus direitos.
Pela química do suplício tu confessas o inconfessável
e os ideais de todos agonizam quando geme um valente.
Nos porões da “inteligência” se aprimoram os gritos do martírio
e só a morte estanca a dor do interrogatório.
Enfim o pânico desterra a esperança
e uma amargura imensurável se aninha no coração da pátria.

Naquele inverno longo e cruel
as sombras tenebrosas da opressão cobriram as terras do Cruzeiro.
As sementes não ousaram renascer
os frutos encruaram
as flores foram encarceradas, desterradas, abatidas.
Aqueles foram nossos anos de infortúnio
nossos “anos dourados” pelo genocídio cotidiano
pela dieta do fel e da impotência
pela assombrosa dimensão do medo
pelo silêncio angustiante dos vencidos.

Quando só restou a escuridão no fim do túnel
e nossos olhos mendigavam por uma réstia de luz, uma esperança…
então surgiste tu…
e tu te chamavas Resistência…
Todos sabíamos que virias
porque tu surges na encruzilhada revolucionária dos povos
e a tua história é a história da própria humanidade.
E eis porque tua bandeira tem mil pátrias
a tua face tem mil rostos
e o teu braço tem mil punhos.
E eis por que escrevo teu nome na linha de fogo dos meus versos
para denunciar os que mancharam tua imagem
para dizer que a tua saga será reescrita pela pátria comovida
e por isso te chamo Marighella, o grande camarada
o combatente da primeira hora, na ação e na vanguarda.
E te chamo Carlos Lamarca, o capitão rebelde
que honrou com sangue a farda guerrilheira.
Com respeito te chamo Gregório Bezerra
e saúdo a coragem sexagenária arrastada pelas ruas de Recife.
Minhas lágrimas ainda cantam por ti, Vladimir Herzog
porque sinto que uma parte de todos nós, sobreviventes, foi contigo pendurada.

Sim…, tu te chamavas Resistência
e me lembro agora do teu primeiro martir
quando ainda era juvenil tua beleza
e um estampido emudeceu o teu discurso de mil vozes.
Então um corpo tombou no fim da tarde
e por isso te chamo Edson Luiz e canto dezessete primaveras
sangrando sangrando sangrando numa multidão de lágrimas
e relembro um coração de estudante
escorrendo palpitante num peito perfurado.
Sim…, tu te chamavas resistência
e eram muitos e muitos os teus nomes.
E hoje, em memória de tantas vidas silenciadas,
trago, nesse solitário canto de combate,
o testemunho e o tributo da poesia
pra remarcar o nosso inconquistável território
e descrever a tua face com as palavras Ibiúna e Araguaia
e por isso digo dez, digo cem, digo mil
e digo que quisera nominar todos os bravos.

E agora que o tempo secou a imensa lama
e os sobreviventes saíram das trincheiras;
agora que exumamos nossas vítimas
e os verdugos a tudo assistem impunemente;
perguntamos se o tempo também secou o rio de lágrimas,
se o coração das mães já despiu o amargo luto
se os órfãos receberam as respostas
se os amantes encontraram outros braços.
Pergutamos se todos os dossiês já foram abertos
se todas as senhas foram decifradas
porque prostituiram a justiça impunemente
e se os pretorianos já cumpriram a penitência.
Perguntamos se todos os nossos mortos já receberam sepultura
se a história já revelou o preço da tragédia
e quem arrancará de nossa carne esse espinho lancinante.

Perguntamos…, até quando durará essa cumplicidade e esse silêncio
quando será revogado esse decreto
e em que tribunal responderão enfim os acusados.

Eis aí nossa Guernica!!!
mas tu ressurgiste triunfante dos escombros
trazendo em teu corpo as cicatrizes do calvário.
Foste afogada com o sangue dos caídos
mas és agora a redenção e a herança dos vencidos.
Tu és o tribunal na consciência dos tiranos
dos oprimidos és o baluarte e a véspera da vitória
a espada de Espártaco eras tu
fostes as lanças araucanas de Lautaro e de Caupolicán
e a imagem gloriosa da América
estampada na praça do martírio de Tupac Amaru.
O sonho americano de Bolívar foi escrito com teu nome
porque tu és a fonte, o cântaro, a água que embriaga,
sede perene da alma, da vida tu és a dádiva suprema.
Foste a tribuna dos abolicionistas
e assinaste a glória da pátria com a mão de uma princeza
és o hino dos militantes, o cântico triunfal, delírio
bandeira dos inconfidentes, ainda que tardia
Liberdade, Liberdade
meu único amor
meu peito de viola te entoa enamorado.

Saúdo os que ousaram preservar seu sonho
e em nome de todas as bandeiras libertárias, vos saúdo…
a história vos saúda
porque nosso destino está tatuado nas estrelas…
a liberdade vos saúda
no significado revolucionário da verdade…
a beleza vos saúda
no lirismo imaculado da poesia.
E lá atrás,
muito antes desse imenso pressentir,
quando meus passos cruzavam o chão fraterno de outras pátrias,
quando a América era uma só trincheira
e a luz fulgurante de uma ilha iluminava, do Caribe, os nossos sonhos,
com minhas canções de bardo itinerante

Manoel de Andrade




1 comentário:

O Puma disse...

... entretanto em Serralves comandam os "criativos" engravatados