terça-feira, 29 de janeiro de 2013

UMA CHAMA NÃO SE PRENDE - Manuel Gusmão

UMA CHAMA NÃO SE PRENDE 
rodeado de paredes
rodeadas de
muros altos
que foram depois muralhas
um preso encarcerado
ao
longo da terrível década de 50
inteira
Não cedeu.

Levado a tribunal
em 3 e 10 de Maio de 1950
só então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele torturados não «falaram»
não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo greve da fome foi morto
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o
seu Partido a sua acção
e a
sua orientação política

Ponto a ponto responde às calúnias
que são os porcos argumentos do ódio
e do
terror de estado Ponto a ponto
responde
com o orgulho do homem livre
e o
vigor da inteligência Responde por si
e
pelos seus como quem acusa
e
ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso
Dos 11
anos seguidos, preso,
14 meses
incomunicável,
8
anos em isolamento
E
não cedeu Nunca cedeu
Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/e grita/contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
este homem livre é uma chama
uma lâmpara
marina

Não cede lê e desenha lê
e
estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada
pelo vento e pelo silêncio
numa
cela
Não cede e escreve
A
Questão Agrária
As
lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma
tradução do Rei Lear
e escreve
Até Amanhã, camaradas

o homem livre encarcerado
fugiu
enfim
colectivamente
a 3 de
Janeiro de 1960
e
nunca mais foi apanhado
Manuel Gusmão
(de «Três Curtos Discursos em Homenagem Póstuma a Álvaro Cunhal»)

sábado, 26 de janeiro de 2013

A criança e a vida




NÓS SOMOS TRISTES

Na noite de Carnaval eu muito triste,
e via todas as pessoas magoadas.
E a cor do céu também estava aborrecida.
E os homens das laranjas sem apregoar.
E eu não sabia o que tinha sido. Mas quando
a minha Mãe, voltou, disse-me: os polícias
voltaram a bater nos vendedores.
E eu disse à minha Mãe: que chatice!
E a minha Mãe, deu-me um beijo.
[Jorge - 8 anos]

O CÉU

Ó céu que és tão lindo
com essa
vestimenta azulinho claro!
que tu gostas tanto de mim
ó meu céu
da cor dos olhos da minha Mãe.
José Telmo - 8 anos

(de um livrinho que muito estimo)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

FRAUDULENTOS - Almeida Faria

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS
X
FRAUDULENTOS

O Oitavo Círculo tem fama de ser o mais concorrido.
Além de nós, incansáveis praticantes da fraude
E seu instrumental (o embuste, o branqueamento,
Os documentos forjados), ao mesmo Círculo vão parar
Os aduladores e sedutores de mansas falas
E os temíveis rufias de várias rufiagens.
Muitos de nós cultivamos a fraude fiscal, banal
Quando Justiça e Estado andam neste estado.
Outros optaram pelo contrabando
Dos secos e molhados da mentirola
Em verso e prosa, das amplas promessas
E poses honestas para enrolar papalvos.
Todos nós, mulheres e os homens,
Porque a vaidade de aceder à verdade
Não compensa, é uma perda de tempo e dá trabalho,
Nos tornámos a fraude de nós próprios, defendendo
A nobre causa do direito à fraude.

Almeida Faria

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Aleksandr Púchkin

Exiit qui seminat seminare semen suun.

Ermo semeador da liberdade,
Saí
sozinho, antes da estrela;
Com a mão límpida e sem pecado,
Nos sulcos da terra escravizados
Lancei o
grão vivificante –
Pena perdida: perdi meu tempo,
Meus bons desígnios e meus cuidados…

Pastai
então, povos mansos, pastai!
Não vos acorda o clamor da honra.
Os
dons da liberdade a um rebanho
À
matança ou tosquia destinado?
Vossa herança é, por todo o sempre,
O
jugo de chocalhos e a aguilhada.

Aleksandr Púchkin
(tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

domingo, 20 de janeiro de 2013

ILHA - Amílcar Cabral

ILHA

Tu vives — mãe adormecida —
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…
Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
— os sonhos dos teus filhos —
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!
Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
— terra dura —
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

Amílcar Cabral
Praia, Cabo Verde, 1945

sábado, 19 de janeiro de 2013

POETA-MILITANTE DA PALAVRA DADA

POETA-MILITANTE DA PALAVRA DADA

sou um poeta-militante de causas perdidas
um eterno exilado infante
porque não suporto novos campos de concentração
nem elevadores sociais – causam-me claustrofobia
e
comigo estou sempre em guerra
podes
não acreditar mas não me vendo
estou
mesmo fora do mercado
mas se me deres rosas do cabo
talvez nas tormentas desse amor me dê e rende
       
mas não me interessa só comer os teus frutos
e
limpar a minha boca amarga na tua
quero
roubar a tua alma dulcineia
a
galope contra novos moinhos de opressão
para resgatar quixote toda a minha militância
que reside renitente nesta pança de loucura.

Dinis H G Nunes

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

ELOGIO DA SOLIDÃO - josé alberto de oliveira



ELOGIO DA SOLIDÃO

Uma casa para estrear e descobrir
em quantas salas se acomoda a solidão.
Cozinhou o
jantar e come atentamente
como todos quantos dividem a comida em silêncio:
o
náufrago, o mendigo, o oleiro na lancheira.

Coze o
seu barro, um jeito de partir o pão
que deve ao tempo uma lentidão coalhada.
O
ruído do vizinho não o incomoda.
Nenhuma
fala ou resíduo humano leveda
uma
página ao acaso. Pode decidir beber mais vinho
ou inaugurar a leitura de outro livro.
Mesmo sair para beber café e mastigar o frio.

No
pasto, a chuva rega a placidez do boi;
abana a cabeça, fumegam as narinas,
desenha-se num
fundo de pinhal que o vento
castiga; na caruma molhada pressente-se
o
rumor de um cão absorto na ilusão
do
que procura. Coisas mínimas, irrisórias,
vão salvar o resto da noite de presumir felicidade.

Lá fora a cidade está cercada na convicção
das
suas vidas perdoáveis, mercando
um alimento longamente dispensável
- a
respiração em vitualhas e sarcasmos,
a
pobreza irresignável e irresolúvel,
o
cansaço de não estar só e não querer estar.


josé alberto de oliveira
por alguns dias
assírio & alvim
1992