segunda-feira, 18 de setembro de 2023

PRIMEIRO DE MAIO - Adão Cruz

PRIMEIRO DE MAIO

 

Primeiro e único

Verdadeiro

Maio acordado

Maio maduro

Penoso

Duro

Nunca vergado.

Floresta de braços e abraços

Festa dor do Maio primeiro

Carne e alma

Seio fecundo

Onde corre o leite

que alimenta o mundo.

Ir e voltar

Voltar a ir e a vir

Entre a dor e a alegria

Penoso caminho da vida inteira

Para prender um braço de sol

Entre a noite e o dia.

Mãos crispadas

Calejadas

Calor que os filhos aquece

Na esperança de outros sóis

Calar da fome que os adormece

Entre o antes e o depois

Da luta que não esmorece.

Maio de medos e canções

Maio de sempre

Maduro Maio

No fundo dos corações

Terra e vida

Vida dos que amam a terra

Antes morta que vencida.

Na palma da mão

Aberta e solidária

Festa da alegria

Maio dor e lágrimas

Renascido Maio

Nunca Maio da agonia.

Sol inteiro roubado

Sol do acordar de Maio

Vermelho e quente

Sol que é de todos

Maio de sol nascente.

adão cruz


sábado, 16 de setembro de 2023

Falo-te de Abril - Leonor Santa Rita


 Falo-te de Abril

Falo-te de Abril
companheiro
deste mês em que as palavras
se enlaçaram de gestos
e transformaram a vida
em mais que esperança

falo-te da luta
companheiro
desta luta agora
dia a dia
e do trabalho e do suor
e dos campos que de ti floriram

falo-te companheiro
deste mês Abril
e da tua força
em que não há enganos

Leonor Santa-Rita

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

HOMEM QUE OLHA O CÉU - Mario Benedetti

Mario Benedetti

HOMEM QUE OLHA O CÉU

Enquanto passa a estrela fugaz

Junto neste desejo instantâneo

montões de desejos profundos e prioritários

por exemplo que a dor não me apague a raiva

que a alegria não desarme o amor

que os assassinos do povo devorem

seus molares caninos e incisivos

e mordam judiciosamente o próprio fígado

que as grades das prisões

se transformem em açúcar ou se curvem de piedade

e os meus irmãos possam fazer de novo

amor e a revolução

que quando enfrentarmos o implacável espelho

não o amaldiçoemos nem nos amaldiçoemos

que os justos avancem

ainda que imperfeitos e feridos

que avancem obstinados como castores

solidários como abelhas

aguerridos como jaguares

e empunhem todos os seus nãos

para instalar a grande afirmação

que a morte perca a sua asquerosa pontualidade

que quando o coração saia do peito

possa encontrar o caminho de regresso

que a morte perca a sua asquerosa

e brutal pontualidade

mas se chegar pontual não nos agarre

mortos de vergonha

que o ar volte a ser respirável e de todos

e que tu mocinha avances alegre e dolorida

pondo nos teus olhos a alma

e a tua mão na minha mão

e nada mais

porque o céu já está turvo novamente

e sem estrelas

com helicópteros e sem deus.

Mário Benedetti

 

HOMBRE QUE MIRA EL CIELO

Mientras pasa la estrella fugaz

acopio en este deseo instantáneo

montones de deseos hondos y prioritarios

por ejemplo que el dolor no me apague la rabia

que la alegría no desarme mi amor

que los asesinos del pueblo se traguen

sus molares caninos e incisivos

y se muerdan juiciosamente el hígado

que los barrotes de las celdas

se vuelvan de azúcar o se curven de piedad

y mis hermanos puedan hacer de nuevo

el amor y revolución

que cuando enfrentemos el implacable espejo

no maldigamos ni nos maldigamos

que los justos avancen

aunque estén imperfectos y heridos

que avancen porfiados como castores

solidarios como abejas

aguerridos como jaguares

y empuñen todos sus noes

para instalar la gran afirmación

que la muerte pierda su asquerosa puntualidad

que cuando el corazón se salga del pecho

pueda encontrar el camino de regreso

que la muerte pierda su asquerosa

y brutal puntualidad

pero si llega puntual no nos agarre

muertos de vergüenza

que el aire vuelva a ser respirable y de todos

y que vos muchachita sigas alegre y dolorida

poniendo en tus ojos el alma

y tu mano en mi mano

y nada más

porque el cielo ya está de nuevo torvo

y sin estrellas

con helicóptero y sin dios.

Mario Benedetti

In El amor, las mujeres y la vida

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

A morte lixa tudo - António Ferra

 

II

A morte lixa tudo

Aqueles velhos vieram do campo como eu

até encontrarem jardins

ornamentados de galinhas de ovos de ouro

e ali ficam de olhos distraídos pela imbecilidade das pombas

até morrerem para dar espaço a padarias

todas gourmet no paladar, do pão de deus à literatura

o largo fica vazio quando a morte lixa tudo

morte do parlapiê, morte dos jornais, morte dos livros,

resta um eléctrico onde nos roubam a carteira

ainda que pelo chiado eu me desloque a pé

em direcção à calçada do combro

de saco vazio a tiracolo entre casas restauradas e pasteis de nata

a pensar nos velhos, avanço um pouco mais

mexo as pernas de homem do campo,

passo ao lado da rua da emenda,

um subterrâneo vazio,

mas já nada se pode emendar,

não era preciso nada disto, etc,

a morte lixa tudo e apetece-me gritar.

 

ANTÓNIO FERRA

 

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Chile: 50 ANOS NEGANDO O INEGAVEL Por Jorge Lillo

Chile: 50 ANOS NEGANDO O INEGAVEL

Por Jorge Lillo

Donde se pone el dedo en la llaga de una herida
que no ha cerrado, no cierra ni cerrará.

El olvido está lleno de memoria
Mario Benedetti

Passaram cinquenta anos

e aqui nada aconteceu;

você não estava ao corrente

e alguns dizem “que estranho!”

Não querem saber o que aconteceu

nem tão-pouco quem o motivou;

hoje ilude-se o compromisso

de validar esta história

que passa como um conto de fadas,

como se fosse um feitiço.

 

“Eu não soube como foi

porque andava noutra.”

Ninguém abriu a sepultura

nem o que veio depois.

Outros dizem: “não pensei,

porque nunca soube de excessos;

tão-pouco tive conhecimento de presos

muito menos de torturados;

nunca vi soldados

atuando em qualquer acontecimento.”

 

“Eu nunca tive partido,

e tão-pouco desfilei;

nunca soube de qualquer UP:

e é-me estranho este aniversário.”

- “Tem a certeza, subsecretário,

que morreu algum presidente?”

-“Em tempos fui dirigente

de partido de esquerda

e esse nome não condiz

com as minhas ideias recentes.”

 

“Nada tive a ver com isso,

nem nunca vi nada;

meu quépi fazia-me sombra

e não podia fazer nada.”

'Não voltará a acontecer,

–diz um grande desiludido

que se encontra exausto

e prestes a desmaiar-

pelo que observo

tudo foi superado.”

 

“Convoco, em primeiro lugar,

a unidade nacional

para o bem empresarial

que beneficia as pessoas.

O passado já está ausente,

olhemos para o futuro.

Deixemos os maus pensamentos

Que em nada nos beneficiam

e não brademos por justiça

para acontecimentos tão sombrios.

 

Muito poucos dizem: “Eu estive,

eu disse, eu publiquei,

eu escrevi, eu desenhei

eu defendi, eu sustive.”

A negação aumenta

pelos caminhos do esquecimento

e nega-se o acontecido

para a tranquilidade

que acomoda a consciência

por inconfessáveis motivos.

 

De nada valem as fotos,

os parentes, os documentos:

inauguram-se monumentos

a quem ontem violou seus votos.

Quem poderá acabar

com a baixeza imperante

que nega a esmagadora

verdade dos testemunhos?

Agem como Polónio (1),

aquele mentiroso intrigante.

 

Supere essa nugatoria (2),

os limites do absurdo:

lançando argumentos grosseiros

tentam distorcer a história

denegrindo a memória

de quem caiu combatendo

no dia mais horrendo

que envergonha este país.

A negação ainda está aqui

e nela te estás afundando.

 

Cinquenta anos depois,

renega-se o passado:

ignora-se o que aconteceu,

o que teria sido e o que foi.

Despeço-me aqui de si

pois já nada me surpreende:

nem o escravo que defende

o verdugo que o maltrata,

nem o traidor que ainda mata

o grande Salvador Allende.

 

(1)           Polônio, (personagem de Hamlet) atua como um “tolo tagarela” para manter sua posição e popularidade seguras e evitar que alguém Descubra seus planos de avanço social.

(2) Nugatoria: que zomba da esperança concebida.

y aquí no ha pasado nada; 
usted no estuvo enterada 
y otros dicen “¡qué extraño!” 
No quieren saber del daño 
ni tampoco quién lo hizo; 
hoy se elude el compromiso 
de validar esta historia 
que pasa como faloria, 
como si fuera un hechizo.

“Yo no supe cómo fue 
porque estaba en otra cosa”. 
Ninguno cavó la fosa 
ni lo que vino después. 
Otros dicen: “no juzgué, 
pues nunca supe de excesos; 
tampoco supe de presos 
ni menos de torturados; 
jamás divisé soldados 
actuando en algún suceso”.

“Yo nunca fui partidario, 
ni tampoco desfilé; 
nunca supe de una UP: 
me extraña este aniversario”. 
—“¿Seguro, subsecretario, 
que murió algún presidente?” 
—“Yo siempre fui dirigente 
de algún partido de izquierda 
y ese nombre no concuerda 
con mis ideas recientes.”

“Nada tuve que ver, 
por eso es que nada vi; 
me daba sombra el quepí 
y nada podía hacer”. 
“No volverá a suceder, 
–dice un iluso encumbrado 
que se encuentra acogotado 
y a punto de fenecer– 
desde el cepo puedo ver 
que todo está superado.”

“Convoco, primeramente, 
a la unidad nacional 
por el bien empresarial 
que beneficia a la gente. 
El pasado ya está ausente, 
miremos hacia el futuro. 
Dejemos los datos duros 
que en nada nos benefician 
y no clamemos justicia 
por sucesos tan oscuros.”

Muy pocos dicen: “yo estuve, 
yo dije, yo publiqué, 
yo escribí, yo dibujé 
yo defendí, yo sostuve.” 
La negación hoy se sube 
por las ramas del olvido 
y se niega lo ocurrido 
por buscar la conveniencia 
que acomoda la conciencia 
a inconfesables motivos.

De nada valen las fotos, 
los deudos, los documentos: 
se inauguran monumentos 
a quien violó ayer sus votos. 
¿Quién podrá ponerle coto 
a la bajeza imperante 
con que niegan la aplastante 
verdad de los testimonios? 
Actúan como Polonio (1), 
aquel mendaz intrigante.

Supera, esta nugatoria (2), 
los límites de lo absurdo: 
lanzando argumentos burdos 
intentan torcer la historia 
denigrando la memoria 
de quien cayó combatiendo 
en el día más horrendo 
que avergüenza a este país. 
La negación sigue aquí 
y en ella te estás hundiendo.

Cincuenta años después, 
se reniega del pasado: 
se desconoce lo actuado, 
lo que ha sido y lo que fue. 
Me despido aquí de usted 
pues ya nada me sorprende: 
ni el esclavo que defiende 
el yugo que lo maltrata, 
ni el traidor que aún mata 
al gran Salvador Allende.

(1) Polonio, (personaje de Hamlet) actúa como un “tonto charlatán” para 
mantener su posición y popularidad a salvo y para evitar que alguien 
descubra sus tramas de ascenso social.

(2) Nugatoria: que burla la esperanza que se había concebido.

 

domingo, 10 de setembro de 2023

Allende Vive! - Selvino Heck

 

Allende Vive!

Uma bala mata o homem.

Uma bala não mata a ideia.

Os dias são muitos, incandescentes.

Ardem na poeira do tempo.

Nada como as horas que se sucedem,

os minutos e segundos,

as batidas do coração que abraçam milhões.

Sonhos são para serem sonhados.

Sonhos iluminam o horizonte.

Sonhos são eternos.

Há um tempo para cada coisa.

Há um tempo para a morte.

Há um tempo para a vida.

Latino-americanamente,

caribenhamente,

sobrevivemos.

Brasileiramente,

vivemos e ressuscitamos Allende.

 

Selvino Heck

escrito em 1973