segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Não chores por mim Argentina

Não Chores Por Mim Argentina

 

Será difícil de compreender
Que apesar de estar hoje aqui
Eu sou povo, jamais poderei me esquecer

Peço me creiam
Que os meus luxos apenas disfarçam
Mais nada que um jogo burguês
São regras do cerimonial

Eu tinha que aceitar, então mudar
E deixar de viver sem ilusão
Sempre atrás da janela
Sempre atrás do portão

Busquei ser livre, mas eu jamais deixarei de sonhar
Que um dia eu irei merecer
O amor que sentem por mim

Não chores por mim Argentina
Minha alma está contigo
A vida inteira eu te dedico
Mas não me deixes, fica comigo

Jamais o poder ambicionei, mentiras falaram de mim
Meu lugar é do povo a quem sempre eu amei
E eu só desejo sentir bem de perto o seu coração
Batendo por mim com fervor
Que nunca me vou esquecer

Não chores por mim Argentina

Don't cry for me Argentina
The truth is I never left you
All through my wild days, my mad existence
Don't kept your promise, don't keep your distance

Eu falei demais
Mas foi só pra convencê-los desta verdade
Se ainda querem duvidar, é só pra dentro de mim
Meu olhar...

 

Compositores: Andrew Lloyd Webber / Victor Berbara / Tin Rice


 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Europa - Filipa Leal

 

Europa

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno

E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?

É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.

Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.

Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,

Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.

Tu disparas contra a luz.

Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.

Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.

Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.

Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.

Há tantos meses que não chove – reparaste?

A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.

Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.

Quem deve. Quem empresta. Quem paga.

 

Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.

Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.

Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.

Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,

Nós não queremos disparar.

Filipa Leal

in Vem à Quinta-feira (2016: 46)

 

domingo, 3 de dezembro de 2023

VAMOS TOMAR A TELEVISÃO - António Pedro

VAMOS TOMAR A TELEVISÃO

Deixarei versos
livros
crónicas
canções
não sou mais do que os outros
sou um homem do pensamento
da mulher
da revolta
da liberdade
os dias ultimamente parecem iguais
mas não são
a mente cavalga
pressente o caos
mesmo que só me desloque à farmácia
ou à mercearia
os guerrilheiros estão à porta
vamos tomar a aldeia
vamos tomar a televisão.

António Pedro


quinta-feira, 30 de novembro de 2023

UM HOMEM - António José Forte

UM HOMEM

De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda

Muda

António José Forte

Uma Faca nos Dentes
Prefácio de Herberto Helder
Parceria A.M. Pereira
Livraria Editora, Lda

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Não me Canso de Falar - Mahmoud Darwish

 

Não me Canso de Falar

Não me canso de falar sobre a diferença ténue
entre as mulheres e as árvores,
sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo
não encontrei em nenhum passaporte.
Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração,
a terra dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens?
Onde está então o meu casebre? Onde estou eu?
A assembleia aplaudiu-me durante três minutos,
três minutos de liberdade e de reconhecimento…
A assembleia acaba de aprovar
o nosso direito ao regresso,
como o de todas as galinhas e todos os cavalos,
a um sonho de pedra.
Aperto-lhes a mão, um a um, depois faço uma saudação,
inclinando-me…
e continuo a viagem para outro país,
onde falarei sobre a diferença
entre miragens e chuva.
E perguntarei:
Senhoras e senhores de bom coração,
a terra dos homens
é de todos os homens?
 

Mahmoud Darwish
(Poeta palestino, 1941-2008)

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Sísifo - Miguel Torga

 

Sísifo

Recomeça...

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

 

Miguel Torga

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

A terra nos é estreita - Mahmud Darwich

 

A terra nos é estreita

A terra nos é estreita. Ela nos encurrala no último desfiladeiro

E nós nos despimos dos membros

Para passar. A terra nos espreme. Fôssemos nós o seu trigo para morrer e

ressuscitar.

Fosse ela a nossa mãe para se compadecer de nós.

Fôssemos nós as imagens dos rochedos

que o nosso sonho levará como espelhos.

Vimos o rosto de quem, na derradeira defesa da alma,

o último de nós matará. Choramos pela festa dos seus filhos e vimos o rosto

Dos que despenham nossos filhos pela janela deste último espaço.

Espelhos que a nossa estrela polirá.

Para onde irmos após a última fronteira?

Para onde voarão os pássaros após o último céu?

Onde dormirão as plantas após o último vento?

Escreveremos nossos nomes com vapor

carmim, cortaremos a mão do canto para que nossa carne o complete.

Aqui morreremos. No último desfiladeiro.

Aqui ou aqui... plantará oliveiras

Nosso sangue.

Mahmud Darwich

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Cantiga do Ódio - Carlos de Oliveira

 

Cantiga do Ódio

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?

Carlos de Oliveira

, in 'Mãe Pobre'

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Cólera e Tristeza - Mahmoud Darwish

 


Cólera e Tristeza

 

A aldeia em ruínas

como um espantalho

a terra rachada

e os troncos de vossas oliveiras

como ninhos de coruja ou de corvos

quem preparou este ano a carreta?

quem trabalhou a terra?

tu! onde está teu irmão... onde teu pai

miragens

de onde vens? de uma muralha?

ou acaso das nuvens?

velas pela dignidade dos mortos?

ou fechas tua porta ao cair da noite?

por que não te sublevas

desde o momento em que a carne do pai

está crucificada

sobre as botas da noite

 

tu a amas?

eu a amei antes de ti

e tremi em suas margens escuras

era bela

mas dançou sobre minha tumba

tu e eu

pedimos satisfações à história

à bandeira que perdeu sua virilidade

quem somos?

deixa que a pressa das ruas

beba na indignidade de nosso estandarte assassinado

por que não te rebelas

quando ela estende seus braços aos outros

e seus seios

 

temos suportado a tristeza durante anos

e o sol não tem nascido

a tristeza é um fogo que o tempo consome

e que o vento desperta

e como domarás o vento

sem armas

exceto a coalizão de vento e fogo

numa pátria violada.

 

Mahmoud Darwish

 

Em: “Folhas de oliveira” (1964


sábado, 18 de novembro de 2023

José Afonso - "Menino d'Oiro"



Menino d’oiro

O meu menino é d'oiro é de oiro fino
Não façam caso que é pequenino
Não façam caso que é pequenino

O meu menino é d'oiro d'oiro fagueiro
Hei de levá-lo no meu veleiro
Hei de levá-lo no meu veleiro

Venham aves do céu pousar de mansinho
Por sobre os ombros do meu menino
Do meu menino, do meu menino

Venham comigo venham que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó
Levo o menino no meu trenó

Quantos sonhos ligeiros p'ra teu sossego
Menino avaro não tenhas medo
Menino avaro não tenhas medo

Onde fores no teu sonho quero ir contigo
Menino d'oiro sou teu amigo
Menino d'oiro sou teu amigo

Venham altas montanhas ventos do mar
Que o meu menino nasceu p'ra amar
Que o meu menino nasceu p'ra amar

Venham comigo venham que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó
Levo o menino no meu trenó

O meu menino é d'oiro
Não façam caso que é pequenino
Não façam caso que é pequenino

O meu menino é d'oiro d'oiro fagueiro
Hei de levá-lo no meu veleiro
Hei de levá-lo no meu veleiro

Venham altas montanhas ventos do mar
Que o meu menino nasceu p'ra amar
Que o meu menino nasceu p'ra amar

Venham comigo venham que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó
Levo o menino no meu trenó

 



quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Não se pode viver sem esperança - Nazim Hikmet

Não se pode viver sem esperança. 

A maioria das pessoas viaja na coberta dos navios
na terceira classe dos comboios
a pé pelas estradas…
A maioria das pessoas.

A maioria das pessoas começa a trabalhar aos oito anos
casa aos vinte
morre aos quarenta.
A maioria das pessoas.

Para todos há pão, salvo para a maioria das pessoas.
arroz também
açúcar também
roupas também
livros também
Há para todos, salvo para a maioria das pessoas.

Não há sombra na terra para a maioria das pessoas
não há candeeiros nas ruas
não há vidros nas janelas.
Mas a maioria das pessoas tem a esperança.
Não se pode viver sem esperança.

Nazim Hikmet

 

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Na última noite nesta terra - MAHMOUD DARWISH

 

I

Na última noite

nesta terra 

 

Na última noite nesta terra, arrancamos os dias

das pequenas árvores, e contamos as costelas que levaremos junto

e aquelas que deixaremos aqui, na última noite

não diremos adeus, não teremos tempo para acabar.

Tudo ficará como está, já que o lugar trocará os nossos sonhos

e trocará os nossos hóspedes. De uma hora para outra, não saberemos mais brincar

porque o lugar estará pronto para receber a poeira... Aqui, na última noite,

contemplamos as montanhas rodeadas de nuvens: a conquista... a reconquista

o tempo antigo a entregar ao tempo novo as chaves dos portões.

Entrem, senhores conquistadores, entrem nas nossas casas, bebam do vinho

das nossas doces “muachahat”. Seremos a noite e, finda a meia-noite,

já não haverá mais auroras levadas em dorso de cavalo, ouvido o último muezim.

O nosso chá é verde, é quente, bebam, o amendoim é fresco, comam,

as camas são verdes, a madeira é de cedro, entreguem-se ao sono

depois de tão longo cerco, durmam nas plumas dos nossos sonhos,

os lençóis estão estendidos, os perfumes esperam por vocês à porta, há muitos espelhos, entrem, nós vamos sair de vez, e vamos depois procurar saber

como era a nossa história frente à história de vocês na longínqua terra,

vamos nos perguntar por fim: onde era o Alandalus

aqui ou lá? nesta terra ou no poema? 

 

MAHMOUD DARWISH

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Cada vez que respiro… - Rafeef Ziadeh

 

Cada vez que respiro…

Sou a terceira geração de mulheres que nunca passaram dos 40.

Eliminadas: de uma forma ou doutra.

Balas ou recordações de balas. Roubaram-nos.

Eramos as pessoas erradas, da religião errada, num estado

desenhado para a exclusividade. Instalado na terra e na pele.

 

Cada vez que respiro…

Sou cada um dos seus suspiros junto a uma janela.

Cada viagem de autocarro à sala de espera da prisão.

Cada abraço o mais longo possível

até ser interrompido por um soldado.

Cada mão trémula que procura entre as ruínas.

 

Estão comigo. Levam-me.

Sou a terceira geração de mulheres que o conseguiram.

Cada vez que inspiro. Cada vez que expiro.

Conseguiram. Conseguimos.


Rafeef Ziadeh

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Tem gente com fome - Solano Trindade

Tem gente com fome

 

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
pra dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio do ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu

 

Solano Trindade

 



sábado, 11 de novembro de 2023

Do lado da verdade - Hiba Hamal Abu Nada

24-6-1991 20-10-2023

هبة كمال صالح أبو ندى

Hiba Hamal Abu Nada

معتمٌ ليل المدينة إلا من وهجِ الصواريخ، صامتٌ إلا من صوت القصف، مخيف إلا من طمأنينة الدعاء، أسود إلا من نور الشهداء. تصبحي على خير يا #غزة.

A noite na cidade é escura,

exceto pelo brilho dos

mísseis;

silenciosa, exceto pelo

som dos bombardeios;

assustadora, exceto pela

garantia das súplicas;

negra, exceto pela luz do

 mártires.

Boa noite, #Gaz

هبة كمال صالح أبو ندى

Hiba Hamal Abu Nada 

Morreu sob os bombardeios sionistas.

Um dia antes, escreveu:

«Se morrermos, saibam que estamos satisfeitos e firmes, e digam ao mundo, em nosso nome, que somos pessoas justas

Do lado da verdade»

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

CANÇÃO - Alexandre O’Neill

 


CANÇÃO


Que saia a última estrela

da avareza da noite

e a esperança venha arder

venha arder em nosso peito

E saiam também os rios

da paciência da terra

É no mar que a aventura

tem as margens que merece

E saiam todos os sóis

que apodreceram no céu

dos que não quiseram ver

- mas que saiam de joelhos

E das mãos que saiam gestos

de pura transformação

Entre o real e o sonho

seremos nós a vertigem

 

Alexandre O’Neill