quinta-feira, 12 de março de 2026

NEM SEMPRE AO POETA APETECEM AS ESTRELAS - António Pedro

 

 NEM SEMPRE AO POETA APETECEM AS ESTRELAS

 Apetece-me não sei porquê uma história de formigas

De formigas assexuadas negras nítidas e rápidas

Com olhos fantásticos colhendo miríades de imagens

E inúteis os olhos das formigas

Desenhadas como um oito ou como um sinal de infinito

Muitas corteses atarefadas prejudiciais

Clericais sociais subtilíssimas pequenas

Formigando no chão

No chão onde florescem os cardos e as cores

No chão onde assenta a carne ansiosa das mulheres

E os joelhos dos homens

No chão onde ecoa a voz repugnante dos pregadores

E a voz das juras e dos negócios

No chão onde cai o suor dos aflitos

E o suor dos amorosos

E o suor dos operários

E o suor dos gordos

No chão onde andam os pés e estalam os escarros

No chão das guerras e das famílias corretas

E dos vazadouros e dos jardins

E do pus verde dos mendigos

E das chagas rendosas e das rendas custosas

E das doidas furiosas

E das rosas

E das airosas e das feias e dos bispos e dos triunfadores

E dos cretinos e das viagens

E dos remédios e dos males

E das vertigens e dos abismos

E das cismas

E dos sismos

E dos vermes do ventre e das sonecas

E dos ludíbrios e dos hábeis

E da força dos garantidos

E das sementes

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas

A grande invasão das formigas multiplicando-se

Cobrindo a face da terra e a dos homens e a das mulheres

Entrando-lhes pelos narizes para roerem os olhos por dentro

E fazendo bulir as coisas mortas e as vivas

Com o espantoso tremeluz irisado e magnífico

Dos seus reflexos negros a substituírem todas as cores

Na grande montanha uma mulher enorme

Nua e infame

Tem as pernas escachadas sob as pregas do ventre

E sob as pregas do ventre seu sexo negro

É o grande formigueiro do mundo

Vive?

As formigas esvaziaram-se da enxúndia e substituíram-na

Só lhe deixaram a pele por fora para ainda haver branco visível

E com pelos ampliados excitados e crescentes

Cobriram e desceram o vale

Enroscaram-se nas árvores

Desinquietaram a placidez das pedras

Forraram as aldeias e as cidades

Os animais e os homens

Que é dos ciúmes e das angústias?

Que é do amor e das palavras?

Que é das carícias e dos dentes?

Que é das renúncias e dos crimes?

Que é das tentações

Das promessas

Dos desejos

Dos apetites

Das fúrias?

Que é de todas as músicas?

O sol inútil cobre um mar negrejante onde reflexos são como os

olhos das

moscas

E um silêncio tremendo finge de paz no mundo

Uma paz de silêncio com formigas

Formigas

Formigas

Formigas

Formigas

António Pedro

 

terça-feira, 10 de março de 2026

(Capicua) Ana Matos Fernandes - Making Teenage Ana Proud

  

Ouvir AQUI  https://youtu.be/u7f6Gc-iX9c?si=MXPDkrnXVw7UWedj

Making Teenage Ana Proud

O cubano velho diz que eu sou de Xangô
O cubano velho diz que eu sou
O cubano velho diz que eu sou de Xangô
O cubano velho diz que eu sou

Adoro ver a vossa glória, a vossa ascensão
Artistas já não fazem história, fazem autopromoção
Adoro ver a vossa cólera, essa indignação
Ativistas de internet monetizam a subversão
Neste apocalipse de merda, nesta terra de beatos
Até a revolta é lerda e até os fachos são fracos
Homens temem o ridículo, nós tememos violência
Num país que é seguro, mas fora da residência
Em que a honra de um macho vale mais do que a nossa vida
E para os jovens tem encanto na hora da despedida
Não é culpa do progresso, esse ranço reacionário
Por cada grunho, um punho, em sentido contrário
Por cada grunho, um voto, em sentido contrário
No combate e no debate, seremos o adversário!

O cubano velho diz que eu sou de Xangô
Que eu cuspo fogo nunca ninguém duvidou
Sou neta das bruxas que o lume não queimou
Se me vires no palco grita fogo fogo!
O cubano velho diz que eu sou de Xangô
Que eu cuspo fogo nunca ninguém duvidou
Sou neta das bruxas que o lume não queimou
Se me vires no palco grita fogo fogo!

Estamos fartas de penar o dobro para ter metade
Estamos fartas da vergonha pelo corpo e na idade
De perder anos de vida na senda pouco sadia
De querer viver até aos cem, sem envelhecer um dia
Mães trabalham como hoje, mas em casa é como dantes
Tudo mina a autoestima de meninas e mulheres brilhantes
Enquanto afaga o ego de qualquer gajo mediano
Encontrando em cada adulto funcional o pai do ano
O tal duplo critério é o sal do patriarcado
Estamos sempre em desvantagem no mesmo micromercado
Exaustas de ter mais bagagem às costas no mesmo trilho, diz-me:
Quantos homens que idolatras criam os seus filhos?
Quantos homens genais criaram os seus filhos?
Quantas mães sobrecarregadas ficaram sem brilho?

O cubano velho diz que eu sou de Xangô
Que eu cuspo fogo nunca ninguém duvidou
Sou neta das bruxas que o lume não queimou
Se me vires no palco grita fogo fogo!
O cubano velho diz que eu sou de Xangô
Que eu cuspo fogo nunca ninguém duvidou
Sou neta das bruxas que o lume não queimou
Se me vires no palco grita fogo fogo!

Ficar velha e feiticeira como Rita Lee
Com a caneta mais certeira que a do Ary
No combate é punho forte como o Ali
Making teenage Ana proud vim até aqui
Ficar velha e feiticeira como Rita Lee
Com a caneta mais certeira que a do Ary
No combate é punho forte como o Ali
Making teenage Ana proud vim até aqui
Making teenage Ana proud

 

(Capicua) Ana Matos Fernandes


sábado, 7 de março de 2026

-legado - Rupi Kaur

 

-legado

me levanto
sobre o sacrifício
de um milhão de mulheres
que vieram antes
e penso
o que é que eu faço
para tornar essa montanha mais alta
para que as mulheres que vierem
depois de mim
possam ver além.

Rupi Kaur

Do livro "O que o sol faz com as flores".

2. quero pedir desculpa a todas as mulheres

quero pedir desculpas a todas as mulheres
que descrevi como bonitas
antes de dizer inteligentes ou corajosas
fico triste por ter falado como se
algo tão simples como aquilo que nasceu com você
fosse seu maior orgulho quando seu
espírito já despedaçou montanhas
de agora em diante vou dizer coisas como
você é forte ou você é incrível
não porque eu não te ache bonita
mas porque você é muito mais do que isso

Rupi Kaur

 


quinta-feira, 5 de março de 2026

ACORDEI COM A ARAGEM DO TEU ROSTO - Fernando Peixoto

ACORDEI COM A ARAGEM DO TEU ROSTO

(Homenagem à mulher no dia 8 de março de 2008)

Acordei com a aragem do teu rosto
dum sono prolongado e entorpecente
e na seara loira dos teus cabelos
onde repousa ainda o sol de Agosto
passearam meus olhos inocentes
à procura da certeza de estar vivo.

Caminhei pelo trilho dos teus passos
rumo ao oceano dos teus olhos cor de anil
e embalado por instantes nos teus braços
respirei finalmente o ar de Abril

Hoje que arremesso os olhos sobre a planície
desenho novas cores nesta paisagem
e se caminho em frente decidido
é porque és mais que um sonho ou uma miragem
é porque és carne és terra és a palavra
és a seiva autêntica e sensível
ao alcance destas mãos com que afago
tua boca quente e apetecível

É porque és mulher inteligência
és o outro pulmão com que respiro
e parte do suor com que transpiro
nesta procura permanente de estar vivo

Acordei com a aragem do teu rosto
dum sono prolongado e entorpecente
e recuso-me de novo a adormecer
porque quero ser eu e ao teu lado
retomar nos dentes a loucura
redescobrindo a fome de viver
para beber a resina da ternura
que a tua boca tem pra me oferecer
e partilhar contigo esta frescura
da manhã que acaba de nascer

Partamos Amor à descoberta
Dum mundo inteiro à nossa espera
enquanto dura a Primavera

 Fernando Peixoto

quarta-feira, 4 de março de 2026

A UMA MULHER DO MEU PAÍS - Fernando Peixoto

 

A UMA MULHER DO MEU PAÍS

Abre as asas, tu que não desistes

de encontrar as asas nos teus braços

e com eles descobrires novos espaços.

 

Abre as asas, tu que não desistes

de rasgar, no tempo, o calendário

que preenche, em cada dia, o teu diário.

 

Abre as asas, tu que não desistes

de mostrar que és viva, e continuas

percorrendo, serena, as mesmas ruas.

 

Abre as asas, tu que não desistes

de mudar a face da cidade

em ímpetos de arrojo e de vontade.

 

Abre as asas, tu que não desistes

de enfrentar o sol que te encandeia

e quebra a tua última cadeia.

 

Abre as asas, amor, e segue em frente,

voa sempre, voa sempre, sem cansaço,

e ensina a voar toda esta gente

que continua especada olhando o espaço.

 

Fernando Peixoto