quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Ano Novo - Fernando Pessoa

Ano Novo

Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Vai, ano velho - Affonso Romano de Sant'Anna

Vai, ano velho

Vai, ano velho, vai de vez,
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um,
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum, pra trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,
a casa e o coração.
Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.

Vem, Ano Novo, vem veloz,
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nosso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso,
e sacia em nós a fome
- de utopia.

Vem na areia da ampulheta com a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se
se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol a gema do Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.
Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.
Entre flores de urânio
é permitido sonhar.




terça-feira, 25 de dezembro de 2018

PEDRAS E CÃES - Vicente Zito Lema

PEDRAS E CÃES

Já nada poderá acontecer na cidade
que nos surpreenda…
O mistério da arte confunde-se
com a obscuridade do dia…
Unem-se todos os vícios
na verdade final:
Aqui mora o que pode pagar
A beleza vai ali, e quase nos perdoa…

O céu não sai do seu lugar,
até poderia cair uma lágrima…
Talvez algum monstro na residência
governamental elogie a morte
com algo mais de engenho…
Por exemplo, um abraço que assassina
pelas costas…
Noite alta, luta-se pelas sobras de comida
nos Macdonalds da cidade…
São coisas de crianças… ninguém ali morre…
As mulheres de antigamente / que sabem de plantas
recomendam: as alegrias da casa
não necessitam muito sol nem muita água…
Diz-se também: quando há lua cheia
para espantar os cães
são necessárias pedras…

Fevereiro de 2018

PIEDRAS Y PERROS
Ya nada puede ocurrir en la ciudad
que despierte sorpresa…
El misterio del arte se confunde
con la oscuridad del día…
Todos los vicios se unen
en la verdad final:
Aquí vive el que puede pagar
La belleza sigue allí, casi nos perdona…

El cielo no se mueve de lugar,
hasta podría caer una lágrima…
Tal vez algún monstruo en la casa
de gobierno alabe la muerte
con algo más de ingenio…
Por ejemplo, un abrazo al que asesina
por la espalda…
Subida más la noche se salda a palazo limpio
la brega por las sobras de comida
en los Macdonalds de la ciudad…
Son cosas de niños… Nadie se muere ahí…
Las mujeres de antes / que sabem de plantas
lo recomiendan: las alegrías del hogar
no necesitan mucho sol ni mucha agua…
También se dice: cuando hay luna llena
para espantar a los perros
se necesitan piedras…
Vicente Zito Lema



segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Cântico de Humanidade - Miguel Torga

Cântico de Humanidade

Hinos aos deuses, não.
Os homens é que merecem
Que se lhes cante a virtude.
Bichos que lavram no chão,
Actuam como parecem,
Sem um disfarce que os mude.

Apenas se os deuses querem
Ser homens, nós os cantemos.
E à soga do mesmo carro,
Com os aguilhões que nos ferem,
Nós também lhes demonstremos
Que são mortais e de barro.

Miguel Torga
in 'Nihil Sibi'