quinta-feira, 3 de abril de 2025

O Apocalipse Árabe - Etel Adnam

 

O Apocalipse Árabe
tradução de Ricardo Domeneck

XXXVI 


Na escura irritação dos olhos esconde-se uma cobra

Nas expirações de americanos há um império em queda

Nas águas podres dos rios há os palestinos

FORA FORA de suas fronteiras a dor tem no pescoço uma coleira

Nos estames do trigo há insetos vacinados contra o pão

Nos barcos árabes há tubarões tombados de riso

Na barriga do camelo há rodovias cegas

FORA FORA do TEMPO há a esperança em pedaços da primavera

No dilúvio das nossas planícies não há chuvas mas pedras

Etel Adnam


XXXVI 

In the dark irritation of the eyes there is a snake hiding

In the exhalations of Americans there is a crumbling empire


In the foul waters of the rivers there are Palestinians


OUT OUT of its borders pain has a leash on its neck


In the wheat stalks there are insects vaccinated against bread


In the Arabian boats there are sharks shaken with laughter


In the camel’s belly there are blind highways


OUT OUT of TIME there is spring’s shattered hope


In the deluge on our plains there are no rains but stones



terça-feira, 1 de abril de 2025

Pablo Neruda - XIV O povo

XIV

O povo

 

Passeava o povo suas bandeiras rubras

e entre eles na pedra que tocaram

estive, na jornada fragorosa

e nas altas canções da luta.

Vi como passo a passo conquistavam.

Somente a resistência dele era caminho,

e isolados eram como troços partidos

duma estrela, sem boca e sem brilho.

Juntos na unidade feita em silêncio,

eram o fogo, o canto indestrutível,

o lento passo do homem na terra

feito profundidades e batalhas.

Eram a dignidade que combatia

o que foi pisoteado, e despertava

como um sistema, a ordem das vidas

que tocavam as portas e se sentavam

na sala central com suas bandeiras.

 

Pablo Neruda

Cântico Geral