quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Liberdade - Paul Éluard

Liberdade

Nos meus cadernos de escola
no banco dela e nas árvores
e na areia e na neve
escrevo o teu nome

Em todas as folhas lidas
nas folhas todas em branco
pedra sangue papel cinza
escrevo o teu nome

Nas imagens todas de ouro
e nas armas dos guerreiros
nas coroas dos monarcas
escrevo o teu nome

Nas selvas e nos desertos
nos ninhos e nas giestas
no eco da minha infância
escrevo o teu nome

Nas maravilhas das noites
no pão branco das manhãs
nas estações namoradas
escrevo o teu nome

Nos meus farrapos de azul
no charco sol bolorento
no lago da lua viva
escrevo o teu nome

Nos campos e no horizonte
nas asas dos passarinhos
e no moinho das sombras
escrevo o teu nome

No bafejar das auroras
no oceano nos navios
e na montanha demente
escrevo o teu nome

Na espuma fina das nuvens
no suor do temporal
na chuva espessa apagada
escrevo o teu nome

Nas formas mais cintilantes
nos sinos todos das cores
na verdade do que é físico
escrevo o teu nome

Nos caminhos despertados
nas estradas desdobradas
nas praças que se transbordam
escrevo o teu nome

No candeeiro que se acende
no candeeiro que se apaga
nas minhas casas bem juntas
escrevo o teu nome

No fruto cortado em dois
do meu espelho e do meu quarto
na cama concha vazia
escrevo o teu nome

No meu cão guloso e terno
nas suas orelhas tesas
na sua pata desastrada
escrevo o teu nome

No trampolim desta porta
nos objectos familiares
na onda do lume bento
escrevo o teu nome

Na carne toda rendida
na fronte dos meus amigos
em cada mão que se estende
escrevo o teu nome

Na vidraça das surpresas
nos lábios todos atentos
muito acima do silêncio
escrevo o teu nome

Nos refúgios destruídos
nos meus faróis arruinados
nas paredes do meu tédio
escrevo o teu nome

Na ausência sem desejos
na desnuda solidão
nos degraus mesmos da morte
escrevo o teu nome

Na saúde rediviva
aos riscos desaparecidos
no esperar sem saudade
escrevo o teu nome

Por poder de uma palavra
recomeço a minha vida
nasci para conhecer-te
nomear-te

Liberdade.

Paul Éluard
1895-1952
tradução de Jorge de Sena

Liberté

Sur
mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable de neige
J'écris ton nom

Sur les pages
lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier
ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous
mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur
mes maisons réunies
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma
chambre
Sur mon lit coquille
vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma
porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de
mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attendries
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur
mes refuges détruits
Sur
mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la
solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans
souvenir
J'écris ton nom

Et
par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour
te connaître
Pour
te nommer

Liberté


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Gritar - Paul Eluard

Gritar
Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a
paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os
gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei
por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a
gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam
Demasiado baixo

Fiz
retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhe destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas
coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou
perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no
meu coração as estações
As
estações dos homens os seus astros
Trémulos de
tão semelhantes serem

E o
meu grito nu sobe um degrau
Da
escadaria imensa da alegria

E
esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de
frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O
tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou
seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da
minha esperança
A
felicidade jorra do meu grito

Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.

Paul Eluard
in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa

CRIER
Ici l’action se simplifie
J’ai renversé le paysage inexplicable du mensonge
J’ai renversé les gestes sans lumière et les jours impuissants
J’ai par-dessus terre jeté les propos lus et entendus
Je
me mets à crier
Chacun parlait trop bas et écrivait
Trop bas

J’ai reculé les limites du cri
L’action se simplifie
Car j’enlève à la mort cette vue sur la vie
Qui lui donnait sa place devant moi

D’un cri
Tant de choses ont disparu
Que rien jamais ne disparaîtra plus
De ce qui mérite de vivre

Je suis bien sûr maintenant que l’été
Chante sous les
portes froides
Sous des armures opposées
Les saisons brûlent dans mon cœur
Les saisons les hommes leurs astres
Tout tremblants d’être
si semblables
Et mon cri nu monte une marche
De l’immense escalier de joie

Et ce feu nu qui m’alourdit
Me rend ma force douce et dure
Ainsi voici mûrir un fruit
Brûlant de froid givré de sueur
Voici la place généreuse
Où ne dorment
que les rêveurs
Le temps est beau crions plus fort
Pour
que les rêveurs dorment mieux
Enveloppés dans des paroles
Qui font le beau temps dans
mes yeux
Je suis bien sûr qu’à tout moment
Aïeul et fils de
mes amours
De mon espoir
Le bonheur jaillit de mon cri

Pour la recherche la plus haute
Un cri dont le mien soit l’écho.

Paul Eluard (1940)


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

À memória de Paul Éluard




Alexandre O’Neill      Paul Éluard
                        
 À memória de Paul Éluard 

Estudaste a bondade aprendeste a alegria
Iluminaste a
noite com a estrela
E o
desejo com a necessidade
Comunicativo bom inteligente
Soubeste
sofrer sem destruir a vida
Sem chamar pela morte
Soubeste vencer o íntimo lazer
As absurdas
manias que a solidão instala
No
coração virado na cabeça perdida
Soubeste mostrar o mais secreto amor
Numa
alegria feroz perfeita pública
Capaz de provocar o ódio e a ternura
Em todas as frentes que por ti passavam
Contra-atacaste repelindo o
mal
Com pesadas perdas para o inimigo
E na miséria que subia aos rostos
Puseste a
nu a resistência a esperança
E
um futuro sorriso
Enquanto velhas feridas se fechavam
Tua
poesia abriu-se e hoje é comum
E
transparente como os olhos das crianças
Hoje é o pão o sangue e o direito à esperança
À
esperança que é «um boi a lavrar um campo»
E
que é «um facho a lavrar o olhar»
Andaste triste mas não foste a tristeza
Sofreste
muito mas não foste a dor
Amaste
imenso e eras o amor
Cantaste a beleza proferiste a verdade
Encontraste
não uma mas a razão de ser
Compreendeste a
palavra felicidade
E numa extrema juventude e sob o peso
Precioso da simplicidade
Tudo disseste
Disseste o que devias dizer.

In No
Reino da Dinamarca