sexta-feira, 12 de maio de 2023

a sentença - Adelaide Ivánova

 

a sentença

         duas releituras de duas odes de ricardo reis

                                               I
pesa o decreto atroz, o fim certeiro.
pesa a sentença igual do juiz iníquo.
pesa como bigorna em minhas costas:
          um homem foi hoje absolvido.

se a justiça é cega, só o xampô é neutro:
quão pouca diferença na inocência
do homem e das hienas. deixem-me em paz!
          antes encham-me de vinho

a taça, qu'inda que bem ruim me deixe
ébria, console-me a alcoólica amnésia
e olvide o que de fato é tal sentença:
           a mulher é a culpada.

                                              II
peso do fiel juiz igual sentença
em cada pobre homem, que não há motivo
para tanto. não fiz mal nenhum à mulher e
           foi grande meu espanto

quando ela se ofendeu. exagerada, agora
reclama, fez denúncia e drama, mas na hora
nem se mexeu. culpa é dela: encheu à brava
         a garbosa cara.

se a justiça é cega, só a toupeira é sábia.
celebro abonançado o evidente indulto
pois sou apenas homem, não um monstro! leixai
          à mulher o trauma.

Adelaide Ivánova

 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Carl Marx died 1883 aged 65 - António Cisneros

 

Carl Marx died 1883 aged 65

 

Ainda recordo a casa de minha tia-avó e esse par de gravuras:

Um cavaleiro na casa do alfaiate, Grande desfile militar em Viena, 1902.

Dias em que já nada de mal podia acontecer. Todos levavam a

sua pata de coelho atada à

      cintura.

Também minha tia-avó - vinte anos e o chapéu de palha ao sol,

preocupando-se

      apenas

em manter a boca e as pernas bem fechadas.

Eram os homens de boa vontade e orelhas limpas.

No music-hall os anarquistas, loucos barbudos e envoltos em cachecóis.

Que outonos, que verões.

Eiffel fez uma torre onde se lia: “até aqui chegou o homem”.

Outra gravura:

«Virtude, amor e ciúme protegendo as boas famílias.»

E isso quando o velho Marx ainda não tinha vinte anos de idade sob esta erva

- gorda e eriçada, boa para os campos de golf.

As coroas de flores e o caixão descansaram três vezes

junto à colina

e depois foi sepultado

junto ao túmulo de Molly Redgrove «bombardeado pelo inimigo

em 1940 e logo

               reconstruído».

Ah o velho Karl moendo e derretendo na marmita os diversos metais

enquanto os filhos saltavam das torres de Spiegel às ilhas de Times

e a sua mulher fervia as cebolas e a coisa não avançava e depois

sim e então

veio o da Praça Vendome e Lenine e o montão de revoltas

e depois

as damas temeram algo mais do que uma mão nas nádegas

e os cavalheiros puderam

      suspeitar

que a locomotiva a vapor já não era mais o rosto da felicidade universal.

 

“Assim foi, e estou em divida contigo, velho desmancha-prazeres”.

 

António Cisneros

 

KARL MARX DIED 1883 AGED 65

Todavía estoy a tiempo de recordar la casa de mi tía abuela y ese par de grabados:
Un caballero en la casa del sastre, Gran desfile militar en Viena, 1902.
Días en que ya nada malo podía ocurrir. Todos llevaban su pata de conejo atada a la
            cintura.
También mi tía abuela —veinte años y el sombrero de paja bajo el sol, preocupándose
                apenas
por mantener la boca, las piernas bien cerradas.
Eran hombres de buena voluntad y las orejas limpias.
Sólo en el music-hall los anarquistas, locos barbados y envueltos en bufandas.
Qué otoños, qué veranos.
Eiffel hizo una torre que decía «hasta aquí llegó el hombre». Otro grabado:
«Virtud y amor y celo protegiendo a las buenas familias».
Y eso que el viejo Marx aún no cumplía los veinte años de edad bajo esta yerba
—gorda y erizada, conveniente a los campos de golf.
Las coronas de flores y el cajón tuvieron tres descansos al pie de la colina
y después fue enterrado
junto a la tumba de Molly Redgrove «bombardeada por el enemigo en 1940 y vuelta a
           construir».
Ah el viejo Karl moliendo y derritiendo en la marmita los diversos metales
mientras sus hijos saltaban de las torres de Spiegel a las islas de Times
y su mujer hervía las cebollas y la cosa no iba y después sí y entonces
vino lo de Plaza Vendome y eso de Lenin y el montón de revueltas y entonces
las damas temieron algo más que una mano en las nalgas y los caballeros pudieron
           sospechar
que la locomotora a vapor ya no era más el rostro de la felicidad universal.

«Así fue, y estoy en deuda contigo, viejo aguafiestas».

.

 

terça-feira, 9 de maio de 2023

Com um punhado - Vasco Cabral

 

Com um punhado


Com um punhado de esperança

na mão
eu espalharei o calor
que há-de aquecer-te
irmão!
Eu serei como o semeador
que lança a semente à terra
e a vê frutificar mais tarde.
A pouco e pouco morrerão a dor
e a dúvida.
E tu, como eu, irmão!, hás-de sentir a esperança!

Vasco Cabral

Foi escrito em 1957, no auge da mobilização revolucionária sob os auspícios do PAIGC. Publicado no livro “A luta é a minha primavera”, este poema representa a rotura com o ideal colonial e faz um convite à construção de uma consciência nacional soberana de afirmação identitária.

 

segunda-feira, 8 de maio de 2023

A Dor - Albano Martins

 

A Dor

Não ponhas o dedo
na ferida. Deixa
a dor respirar
em segredo.

Albano Martins 

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Elogio ao trabalho clandestino - Bertolt Brecht

 

Elogio ao trabalho clandestino

É bonito
usar da palavra na luta de classes.
Clamar alto e bom som pela luta das massas.
Pisar os opressores, libertar os oprimidos.
Árdua e útil é a pequena tarefa de cada dia
que secreta e tenaz tece
a rede do Partido sob
os fuzis apontados dos capitalistas.
Falar, mas
escondendo o orador.
Vencer, mas
escondendo o vencedor.
Morrer, mas
dissimulando a morte.
Pela glória quem não faria grandes coisas?
Mas quem as faz pelo olvido?
E a glória busca em vão
os autores do grande feito.
Sai da sombra por um momento
rostos anÓnimos, dissimulados,
e aceitai;
o nosso agradecimento.


Bertolt Brecht (1898-1956)

 

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Assombro - Carlos de Oliveira

 

Assombro

Eis-me no centro do assombro,
onde não há distinção nenhuma
entre ser queimado e ser fogo.

No centro do assombro,
mordido pelas chamas
e a mordê-las.


Carlos de Oliveira

 

quarta-feira, 26 de abril de 2023

NOTÍCIA PARA COLAR NA PAREDE - Egito Gonçalve

 

NOTÍCIA PARA COLAR NA PAREDE

 

Por aqui andamos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente
até ao limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente.

Egito Gonçalves

Notícias do Bloqueio, n.º 3, p. 61

terça-feira, 18 de abril de 2023

A vida na poesia de Joaquim Pessoa

 
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Cantiga de Maio

Trago dentro da garganta
As letras do teu nome
Quando um homem se levanta
Grita fúria em vez de fome
Só a força das palavras
Fez do medo esta verdade
Quando é teu o chão que lavras
O arado é liberdade
Meu país vontade corcel de saudade vencida
Meu povo em viagem ganhando a coragem perdida
Meu trigo meu canto meu maio de espanto doendo
Meu abril tão cedo tão tarde meu medo morrendo
Meu amor ausente meu beijo por dentro queimado
Num tempo tão lento tardamos no vento até quando
Até quando?
Trago as palavras desertas
Na  canção que eu inventei
E nas duas mãos abertas
Estas veias que rasguei
Por isso o meu sangue corre
Na seiva da primavera
Sou um homem que não morre
Sou um povo que não espera
Meu país vontade corcel de saudade vencida
Meu povo em viagem ganhando a coragem perdida
Meu trigo meu canto meu maio de espanto doendo
Meu abril tão cedo tão tarde meu medo morrendo
Meu amor ausente meu beijo por dentro queimado
Num tempo tão lento tardamos no vento até quando
Até quando?

Joaquim Pessoa
Carlos Do Carmo interpreta "Cantiga De Maio"

domingo, 16 de abril de 2023

Novo Tempo - Ivan Lins

 

 Ao som de "Novo Tempo" Lula é recebido por Xi Jinping

A MPB nunca esteve tão presente numa visita presidencial no exterior como na de Lula à China

14 de abril de 2023

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 Novo Tempo

No novo tempo
Apesar dos castigos
Estamos crescidos
Estamos atentos
Estamos mais vivos

Pra nos socorrer
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer

No novo tempo
Apesar dos perigos
Da força mais bruta
Da noite que assusta
Estamos na luta

Pra sobreviver
Pra sobreviver
Pra sobreviver

Pra que nossa esperança
Seja mais que vingança
Seja sempre um caminho
Que se deixa de herança

No novo tempo
Apesar dos castigos
De toda fadiga
De toda injustiça
Estamos na briga

Pra nos socorrer
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer

No novo tempo
Apesar dos perigos
De todos pecados
De todos enganos
Estamos marcados

Pra sobreviver
Pra sobreviver
Pra sobreviver

Pra que nossa esperança
Seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho
Que se deixa de herança

No novo tempo
Apesar dos castigos
Estamos em cena
Estamos na rua
Quebrando as algemas

Pra nos socorrer
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer

No novo tempo
Apesar dos perigos
A gente se encontra
Cantando na praça
Fazendo pirraça

Pra sobreviver
Pra sobreviver
Pra sobreviver

Composição: Vitor Martins / Ivan Lins

Ivan Lins: "eu não paro de chorar"

 

Ao som da cantiga popular “Se essa rua fosse minha”, de Mario Lago e Roberto Martins, o presidente do Brasil foi recebido quando desembarcou em Shanghai. E quando foi rececionado hoje em Pequim, no Grande Palácio do Povo, com crianças acenando bandeiras e longa passadeira vermelha, pelo presidente Xi Jinping, a música executada pela Banda do Exército da China foi “No novo tempo”, de Ivan Lins e Vitor Martins.

Vou transcrever aqui a reação de Ivan Lins, depois de ler as várias manifestações dos colegas Antonio Grassi, Zélia Duncan, Bete Mendes, Itala Nandi, Herson Capri, postada no grupo de zap Coletivo Sérgio Ricardo, de gente da cultura:

“E eu que não paro de chorar. Meu Presidente recebe as honras chinesas com minha canção, dedicada ao meu Povo amado, querido, sofrido, ao meu Brasilzinho do fundo do meu coração…pô, não consigo parar…mas sei que me está fazendo bem…obrigado, Companheiros.”