sexta-feira, 12 de maio de 2023

a sentença - Adelaide Ivánova

 

a sentença

         duas releituras de duas odes de ricardo reis

                                               I
pesa o decreto atroz, o fim certeiro.
pesa a sentença igual do juiz iníquo.
pesa como bigorna em minhas costas:
          um homem foi hoje absolvido.

se a justiça é cega, só o xampô é neutro:
quão pouca diferença na inocência
do homem e das hienas. deixem-me em paz!
          antes encham-me de vinho

a taça, qu'inda que bem ruim me deixe
ébria, console-me a alcoólica amnésia
e olvide o que de fato é tal sentença:
           a mulher é a culpada.

                                              II
peso do fiel juiz igual sentença
em cada pobre homem, que não há motivo
para tanto. não fiz mal nenhum à mulher e
           foi grande meu espanto

quando ela se ofendeu. exagerada, agora
reclama, fez denúncia e drama, mas na hora
nem se mexeu. culpa é dela: encheu à brava
         a garbosa cara.

se a justiça é cega, só a toupeira é sábia.
celebro abonançado o evidente indulto
pois sou apenas homem, não um monstro! leixai
          à mulher o trauma.

Adelaide Ivánova

 

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