quinta-feira, 25 de maio de 2023

A Justiça - FATMA GALIA

 

A Justiça

Quem não suspira pelo anseio de justiça?

Procuro a por toda a parte e

não a encontro.

 

Quem sabe onde se esconde?

Chamo a e não me responde.

 

Quem a tenha retida

que a solte já.

 

Quantos inocentes pereceram

sem que ninguém lhes tenha

dado a razão.

 

Quantos ficaram impunes

sem pagar por suas culpas.

 

Quantos culpados pagaram

para não ser julgados.

 

Quantos indícios foram apagados

para não ser descobertos.

 

Quantos segredos acusatórios

foram enterrados antes de

ser confessados.

 

Quem suspira o anseio de justiça,

que não desista, algum dia chegará

quando a chames

te responderá.

 

Quem sabe onde se esconde?

Chamo a e não me responde.

 

Quem a retém

que a solte já.

FATMA GALIA

 

 

 

La Justicia

¿Quién no suspira el anhelo de la justicia?

La busco por todas partes y

 no la encuentro.

 .

¿Quién sabe dónde se esconde?

La llamo y no me responde.

 .

quién la tenga retenida

Que la suelte ya.

 .

Cuántos inocentes perecieron

 sin que nadie les ha

 dado la razón.

 .

Cuántos se quedaron impunes

sin pagar por sus culpas.

 .

Cuántos culpables pagaron

para no ser juzgados.

.

Cuántos indicios fueron borrados

para no ser descubiertos.

 .

Cuántos secretos inculpa torios

 se fueron  a la tumba antes de

 ser confesados.

 .

Quien suspira el anhelo de la justicia,

que no cese algún día llegará

 cuando  la llames

 te responderá.

 .

¿Quién sabe dónde se esconde?

La llamo y no me responde.

 .

quien la tenga retenida

que la suelte ya

 

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Ao Desconcerto Do Mundo - Luís Vaz de Camões

 

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

 

 Luís Vaz de Camões

terça-feira, 16 de maio de 2023

Ekalaivan - Meena Kandasamy

Ekalaivan

 

Esta nota vem como um consolo:

 

             Você pode fazer muitas coisas

             Com a mão esquerda.

             Além disso, Dronacharyas fascistas garantem

             Tratamento para canhotos.

 

             Também,

             Você não precisa do seu polegar direito

             Para puxar um gatilho ou lançar uma bomba.

 

Meena Kandasamy


Ekalaivan

 This note comes as a consolation:

             You can do a lot of things
             With your left hand.
             Besides, fascist Dronacharyas warrant
             Left-handed treatment.

             Also,
             You don’t need your right thumb          
             To pull a trigger or hurl a bomb.

 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Palestina pequena lição em forma de cantiga - João Pedro Mésseder

 

Palestina pequena lição em forma de cantiga

 

- Chovem tiros, caem bombas,

Cai o míssil do avião!

- Aprende, meu caro poeta,

de Ariel Sharon a lição;

Gaza rima com Sabra,

Cisjordânia com Chatila.

A rima pode ser coxa,

mas coxa não é a lição;

com oito letras de sangue

se escreve a palavra opressão.

-  A funda já está vazia,

a fisga a pedra soltou.

O verso pode ser coxo

mas já conhece a verdade;

com nove letras de pedra

se conquista a liberdade.

 

João Pedro Mésseder

In ‘Lá Longe o Fogo’ – página a página, 2005

domingo, 14 de maio de 2023

Deixo-te uma pátria livre do colonialismo - Paulina Chiziane


Deixo-te uma pátria livre do colonialismo

 

Escuta o grito de todos os teus ancestrais:

Amamos-te muito antes de nasceres, ó África de hoje

Por ti renovamos a esperança mesmo depois de mortos

Envolvemo-nos em batalhas, quebramos correntes

Para te deixarmos uma pátria livre como herança

 

Ao sol os novos invasores vestirão a mais fina pele de cordeiro

Lobos que são, uivarão nas alcateias em todas as noites de lua

Piratas destemidos, tentarão derrubar até o marulhar das ondas

E quererão substituir Deus na criação de África

 

Os invasores em fuga deixam línguas, armas e saberes

Usa-os na construção da união e fortaleza, ó nova África

Devolve ao teu povo a história e a dignidade usurpadas

Porque o futuro, esse espaço intangível, ideal, perfeito

Espera de ti esse gesto de nobreza

 

Segura as estrelas que te roubam das mãos

Coloca o arco-íris no centro de tua mente.

Sustenta a esperança acima de todas as coisas

Tu não estás só, estás com Deus e com a memória

Dos teus antepassados e dos mártires de África

 

Paulina Chiziane


sexta-feira, 12 de maio de 2023

a sentença - Adelaide Ivánova

 

a sentença

         duas releituras de duas odes de ricardo reis

                                               I
pesa o decreto atroz, o fim certeiro.
pesa a sentença igual do juiz iníquo.
pesa como bigorna em minhas costas:
          um homem foi hoje absolvido.

se a justiça é cega, só o xampô é neutro:
quão pouca diferença na inocência
do homem e das hienas. deixem-me em paz!
          antes encham-me de vinho

a taça, qu'inda que bem ruim me deixe
ébria, console-me a alcoólica amnésia
e olvide o que de fato é tal sentença:
           a mulher é a culpada.

                                              II
peso do fiel juiz igual sentença
em cada pobre homem, que não há motivo
para tanto. não fiz mal nenhum à mulher e
           foi grande meu espanto

quando ela se ofendeu. exagerada, agora
reclama, fez denúncia e drama, mas na hora
nem se mexeu. culpa é dela: encheu à brava
         a garbosa cara.

se a justiça é cega, só a toupeira é sábia.
celebro abonançado o evidente indulto
pois sou apenas homem, não um monstro! leixai
          à mulher o trauma.

Adelaide Ivánova

 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Carl Marx died 1883 aged 65 - António Cisneros

 

Carl Marx died 1883 aged 65

 

Ainda recordo a casa de minha tia-avó e esse par de gravuras:

Um cavaleiro na casa do alfaiate, Grande desfile militar em Viena, 1902.

Dias em que já nada de mal podia acontecer. Todos levavam a

sua pata de coelho atada à

      cintura.

Também minha tia-avó - vinte anos e o chapéu de palha ao sol,

preocupando-se

      apenas

em manter a boca e as pernas bem fechadas.

Eram os homens de boa vontade e orelhas limpas.

No music-hall os anarquistas, loucos barbudos e envoltos em cachecóis.

Que outonos, que verões.

Eiffel fez uma torre onde se lia: “até aqui chegou o homem”.

Outra gravura:

«Virtude, amor e ciúme protegendo as boas famílias.»

E isso quando o velho Marx ainda não tinha vinte anos de idade sob esta erva

- gorda e eriçada, boa para os campos de golf.

As coroas de flores e o caixão descansaram três vezes

junto à colina

e depois foi sepultado

junto ao túmulo de Molly Redgrove «bombardeado pelo inimigo

em 1940 e logo

               reconstruído».

Ah o velho Karl moendo e derretendo na marmita os diversos metais

enquanto os filhos saltavam das torres de Spiegel às ilhas de Times

e a sua mulher fervia as cebolas e a coisa não avançava e depois

sim e então

veio o da Praça Vendome e Lenine e o montão de revoltas

e depois

as damas temeram algo mais do que uma mão nas nádegas

e os cavalheiros puderam

      suspeitar

que a locomotiva a vapor já não era mais o rosto da felicidade universal.

 

“Assim foi, e estou em divida contigo, velho desmancha-prazeres”.

 

António Cisneros

 

KARL MARX DIED 1883 AGED 65

Todavía estoy a tiempo de recordar la casa de mi tía abuela y ese par de grabados:
Un caballero en la casa del sastre, Gran desfile militar en Viena, 1902.
Días en que ya nada malo podía ocurrir. Todos llevaban su pata de conejo atada a la
            cintura.
También mi tía abuela —veinte años y el sombrero de paja bajo el sol, preocupándose
                apenas
por mantener la boca, las piernas bien cerradas.
Eran hombres de buena voluntad y las orejas limpias.
Sólo en el music-hall los anarquistas, locos barbados y envueltos en bufandas.
Qué otoños, qué veranos.
Eiffel hizo una torre que decía «hasta aquí llegó el hombre». Otro grabado:
«Virtud y amor y celo protegiendo a las buenas familias».
Y eso que el viejo Marx aún no cumplía los veinte años de edad bajo esta yerba
—gorda y erizada, conveniente a los campos de golf.
Las coronas de flores y el cajón tuvieron tres descansos al pie de la colina
y después fue enterrado
junto a la tumba de Molly Redgrove «bombardeada por el enemigo en 1940 y vuelta a
           construir».
Ah el viejo Karl moliendo y derritiendo en la marmita los diversos metales
mientras sus hijos saltaban de las torres de Spiegel a las islas de Times
y su mujer hervía las cebollas y la cosa no iba y después sí y entonces
vino lo de Plaza Vendome y eso de Lenin y el montón de revueltas y entonces
las damas temieron algo más que una mano en las nalgas y los caballeros pudieron
           sospechar
que la locomotora a vapor ya no era más el rostro de la felicidad universal.

«Así fue, y estoy en deuda contigo, viejo aguafiestas».

.

 

terça-feira, 9 de maio de 2023

Com um punhado - Vasco Cabral

 

Com um punhado


Com um punhado de esperança

na mão
eu espalharei o calor
que há-de aquecer-te
irmão!
Eu serei como o semeador
que lança a semente à terra
e a vê frutificar mais tarde.
A pouco e pouco morrerão a dor
e a dúvida.
E tu, como eu, irmão!, hás-de sentir a esperança!

Vasco Cabral

Foi escrito em 1957, no auge da mobilização revolucionária sob os auspícios do PAIGC. Publicado no livro “A luta é a minha primavera”, este poema representa a rotura com o ideal colonial e faz um convite à construção de uma consciência nacional soberana de afirmação identitária.

 

segunda-feira, 8 de maio de 2023

A Dor - Albano Martins

 

A Dor

Não ponhas o dedo
na ferida. Deixa
a dor respirar
em segredo.

Albano Martins 

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Elogio ao trabalho clandestino - Bertolt Brecht

 

Elogio ao trabalho clandestino

É bonito
usar da palavra na luta de classes.
Clamar alto e bom som pela luta das massas.
Pisar os opressores, libertar os oprimidos.
Árdua e útil é a pequena tarefa de cada dia
que secreta e tenaz tece
a rede do Partido sob
os fuzis apontados dos capitalistas.
Falar, mas
escondendo o orador.
Vencer, mas
escondendo o vencedor.
Morrer, mas
dissimulando a morte.
Pela glória quem não faria grandes coisas?
Mas quem as faz pelo olvido?
E a glória busca em vão
os autores do grande feito.
Sai da sombra por um momento
rostos anÓnimos, dissimulados,
e aceitai;
o nosso agradecimento.


Bertolt Brecht (1898-1956)