quarta-feira, 24 de abril de 2019

Liberdade - Miguel Torga

Liberdade

Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.

— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.  



terça-feira, 23 de abril de 2019

Vens comigo? - Ada Valenzuela



Vens comigo?

A caminhada é longa e o pago é pouco.
Vens comigo?

Faz tanta falta construir mais sorrisos no mundo.
Vens comigo?

Nem sempre se pode sorrir e a tristeza nota-se nos olhos.
Vens comigo?

Faz tanta falta repartir abraços pelas ruas.
Vens comigo?

Entristecem-me as injustiças e choro ante a desigualdade.
Vens comigo?

Faz tanta falta levar esperança a cada bairro, a cada grupo.
Vens comigo?

Sei ouvir e argumentar.
Vens comigo?

Faz tanta falta levantar mais vozes e sonhar outros mundos, construir outros mundos.

Vens comigo?




segunda-feira, 22 de abril de 2019

PALPOS DE ARANHA - João de Sousa Teixeira

PALPOS DE ARANHA

Passam-se coisas estranhas
ou, pelo menos, esquisitas:
na casa dos parasitas
anda tudo às aranhas,
salvo as ditas.

Passando aos pormenores,
há os que por acaso mero
tecem teia a partir do zero:
aracnoexploradores,
salvo erro.

Usando de baba e peçonha,
são servidos de bandeja
mesmo que a gente não veja
por outros bichos sem vergonha,
salvo seja.



domingo, 21 de abril de 2019

Abril - José Fanha


Abril

Havia uma lua de prata e sangue
em cada mão.

Era Abril.

Havia um vento
que empurrava o nosso olhar
e um momento de água clara a escorrer
pelo rosto das mães cansadas.

Era Abril
que descia aos tropeções
pelas ladeiras da cidade.


Abril
tingindo de perfume os hospitais
e colando um verso branco em cada farda.

Era Abril
o mês imprescindível que trazia
um sonho de bagos de romã
e o ar
a saber a framboesas.

Abril
um mês de flores concretas
colocadas na espoleta do desejo
flores pesadas de seiva e cânticos azuis
um mês de flores
um mês.

Havia barcos a voltar
de parte nenhuma
em Abril
e homens que escavavam a terra
em busca da vertical.

Ardiam as palavras
Nesse mês
e foram vistos
dicionários a voar
e mulheres que se despiam abraçando
a pele das oliveiras.

Era Abril que veio e que partiu.

Abril
a deixar sementes prateadas
germinando longamente
no olhar dos meninos por haver.

Lisboa, Portugal
(Do livro ainda inédito "Tempo azul")